Memorial de André Ventura.
“Começando do começo”...
Por mais que esse título possa sugerir o que “aparentemente propõe, seria impossível, pois, por mais que eu quisesse – ou qualquer outro da minha “espécie” –, não conseguiria devido à falta de, digamos: consciência mínima, para tal.
Mas, começarei o que chamarei aqui de releitura de mim mesmo, a partir do ponto pelo qual já sou capaz de me recordar efetivamente de algo. Antes, pois, talvez seja interessante dizer como vim parar em Lauro de Freitas, já que nasci no interior de Alagoas, Arapiraca.
Chegamos a Lauro de Freitas, Bahia – eu e meus pais – atraídos por um tio de consideração de minha mãe, com a expectativa de darmos uma guinada diferente em nossas vidas. E demos! Quando eu ainda tinha apenas um ano de idade, aqui chegamos e logo fomos morar de aluguel numa casa próxima ao centro da cidade e ao futuro trabalho dos meus pais.
A casa tinha um muro branco, com um portão azul, algumas árvores que arrastavam seus galhos no telhado, tirando muitas vezes o sono de minha mãe, que, com sua imaginação fértil, achava que eram ladrões tentando invadir nossa casa. De lá, mudamos para a Travessa Abelardo Andréa, onde passamos, acredito eu, uns dois anos. Lá conheci alguns colegas, como Leandro, Adriano... mas, foi na Rua Abelardo Andréa, que passei uma boa parte da minha infância.
Até quando pôde, minha mãe sempre me colocou para estudar em escolas particulares.
Comecei pela Escolinha Arte e Manha, onde fiz o infantil I e II, depois fui para o CEP – Centro Educacional Paraíso, onde dei segmento fazendo maternal I, II, alfabetização e acho que a primeira série também, depois pro Colégio Pirâmide, onde cursei o primário, depois fui para o Colégio Impacto, onde cursei acho que a terceira série. Em seguida, voltei para o CEP, onde fiquei até o primeiro ano do segundo grau. Aí foi quando a nossa situação financeira, que já vinha gradativamente sendo comprometida, não mais permitiu que eu continuasse a estudar em escolas particulares. Foi então que minha mãe, a D. Cléria Ventura, decidiu me matricular no Colégio Estadual onde até hoje ela leciona, o “Bartolomeu de Gusmão”. Cada colégio que eu estudava tinha a sua peculiaridade, mas também muita coisa em comum.
O CEP sem dúvidas foi um dos que mais me marcou. Lá eu conheci todo tipo de gente, desde professores e alunos e até funcionários da escola, que de alguma forma exerciam suas influências positivas ou negativas – depende do ponto de vista de quem vê – em todos nós. Basicamente um colégio para um público de classe média. Lá eu pude presenciar colegas de minha idade fumando cigarros, consumindo bebidas alcoólicas, namorando fora de hora, ouvindo alguns tipos de músicas classificadas como de péssima influência e que jamais seriam permitidas em minha casa. Era a fase das proibições. E ao mesmo tempo em que eu ficava deslumbrado com tantas novidades, ficava também assustado com a maneira como as coisas aconteciam. Nunca tive vontade, porém, de fazer o que eles faziam, só porque eles faziam. Acho que já desde essa época, eu já me percebia pouco influenciável por certos tipos de atitudes, inclusive em relação a alguns costumes familiares e tradicionais. Vale dizer, que a minha família é essencialmente católica. Meus avós maternos, principalmente meu avô José Ventura, são os maiores influenciadores sob esse aspecto para a nossa família. Eu poderia dizer que a minha mãe, é a cópia aqui em Lauro de Freitas, de meu avô José. Sem dúvidas, muitos desses costumes influenciaram a mim e a minha irmã Fernanda, cinco anos mais nova do que eu, mas não foram suficientes para nortearem nossos caminhos acerca da religião.
Fernanda, hoje casada e com um filhinho de 10 meses, Joãozinho, por influência do marido, tornou-se evangélica. E eu, preferi dispor de mais tempo até que possa me sentir tranqüilo o
suficiente para, se for o caso, seguir por algum caminho religioso.
Da Rua Abelardo Andréa tenho ótimas recordações. Foi lá que eu descobri uma das minhas vocações – se é que se pode ter mais de uma – das quais eu até hoje sou apaixonado: a música. Foi juntamente com Saulo Menezes, um dos meus grandes amigos de infância, que eu aprendi os primeiros acordes num “Di Giorgio” (violão) velho que minha mãe havia comprado na intenção de aprender a tocá-lo, mas que nunca seguiu à frente. Aos poucos fui descobrindo o quanto eu me sentia bem tocando e expressando algumas idéias ou sentimentos em forma de música e o quanto isso mexia comigo. Queria muito atuar como músico profissional. Porém, algo que, a meu ver, poderia ter sido muito mais simples, nesse período, tornou-se um pesadelo para minha vida e me deixou seqüelas até hoje. Meus pais jamais apoiaram essa minha escolha. Minha mãe sempre foi preconceituosa em relação a essa profissão. Sempre diminuiu essa minha escolha tentou por várias vezes me convencer de mudar de escolha. Quando ela percebeu que seria vão insistir na idéia de tentar me direcionar para outra área, ela resolveu – muito a contragosto – me incentivar a pelo menos tentar o vestibular de música na UFBA. Nesse ponto, se faz necessário retomar um pouco sobre a conclusão dos meus estudos no “Colégio Estadual Bartolomeu de Gusmão”. Cheguei ao ensino público no segundo ano do segundo grau, já um pouco influenciado pela rebeldia da adolescência e completamente disposto a extravasar toda a minha insatisfação com determinadas situações anteriores, inclusive a da paixão pela música, sem o mesmo compromisso que nas escolas particulares. Inevitavelmente, meu rendimento escolar caiu assustadoramente, e teoricamente era inaceitável que uma pessoa que estudou todo o tempo em escolas particulares, pudesse ter chegado ao ponto de estar em recuperação em mais de uma matéria. Tudo isso era reflexo das proibições de diversas coisas, mas que eu só conseguia compensar tocando numa banda do bairro onde eu morava. Devido ao fato de ter ficado em recuperação em mais de uma matéria na escola, fui obrigado a me afastar da banda que eu tocava, a fim de me dedicar a estudar e me recuperar do vexame de estar nessa situação.
Afinal de contas, era constrangedor para minha mãe, professora concursada pelo Estado, ter seu próprio filho na recuperação de algumas disciplinas da escola onde ela sempre foi modelo de ensino. Para a felicidade de todos, provei que além de ser bom músico (modéstia à parte), também era capaz de me recuperar e de concluir o ensino médio.
Concluído o ensino médio, me restava agora me preparar então para ingressar numa faculdade, certo? Errado! Optei por passar praticamente um ou dois anos sem “colocar a cara nos livros” – a não ser nos de música – e só trabalhando com música, já ganhando inclusive, algum dinheiro com ela. Eis agora um bom motivo para minimizar as cobranças relacionadas à musica. Foi então que minha mãe sugeriu a idéia de fazer o vestibular para o curso de “Licenciatura” na área de música pela UFBA. Concordei e difundi a idéia com alguns colegas, como: Samuel, Galego, Paulo, Alaim, com os quais passei a intensificar os esforços em prol deste objetivo. Desprendemos vários e vários dias e horas de estudos sobre Teoria Musical, Percepção Musical, Ditado Rítmico e Melódico, Solfejo, Composição de Acordes, etc. a fim de ingressarmos na faculdade de música da UFBA e acabar de vez com o fantasma que nos assombrava quanto as nossas inusitadas escolhas. Daí vieram duas notícias importantes: uma boa e uma ruim. A boa, é que nós fomos aprovados na primeira fase do processo seletivo, que significa que agora só nos restava sermos avaliados pelo que mais sabíamos fazer, música. “Matamos à pau” na prova específica de música. Tudo saíra como planejamos. Fomos bem em todos os aspectos dessa fase. Mas ainda faltava a notícia ruim...
Eu e Samuel fomos reprovados. Exatamente! A nossa pontuação na primeira fase, onde estão as questões de conhecimentos gerais, dentre outras, foi extremamente baixa, o que na soma com a pontuação da segunda fase, não foi suficiente para que fossemos aprovados. E essa labuta se repetiu também no ano seguinte. Foi quando minha mãe, percebendo que o tempo não pára, me fez uma nova sugestão. Ela pediu para que eu analisasse um outro curso, numa área em que eu também me identificasse, depois da música, de preferência que esse curso fizesse parte dos quadros da UNIME, já que ela possuía um benefício de 40% de desconto,
que se estendia também aos filhos, permitido pelo fato de ela ser concursada também pela esfera municipal onde a Prefeitura Municipal de Lauro de Freitas possuía um convênio com a UNIME. Qual o curso que mais me identifiquei? Sem dúvida, Comunicação Social com Habilitação em Publicidade e Propaganda. Inicialmente o meu critério de escolha, além do método de eliminação, foi uma comparação com as atividades que meu pai exercia no município, como: radialista, carro de som, cerimonial, etc. Foi então que me inscrevi para o vestibular, passei e me apaixonei pelo curso. Mas, como “alegria de pobre dura pouco”, só pude cursar dois semestres: 2004.1 e 2004.2. Os motivos foram determinantes: minha mãe precisava concluir a sua licenciatura plena – que poderia já ter sido feita há muito tempo – , pois na época em que ela se formou em Arapiraca – AL, não havia todas as matérias para a conclusão do curso, daí a necessidade de se fazer uma licenciatura plena em outro momento.
Mas ela preferiu fazê-la justamente neste período. Como era ela quem pagava as minhas mensalidades, ficaria inviável pagar as minhas e as delas. E para acabar de completar, houve a mudança da gestão municipal e o encerramento do convênio da PMLF com a UNIME. Lá se ia o meu desconto. Resultado: tive que trancar a matrícula por mais de quatro anos. Felizmente, eu estou podendo retornar agora em 2009.2, porém, com as mudanças do MEC, muitas das matérias que eu já havia cursado em 2004.1 e 2004.2, foram excluídas do curso.
No máximo eu conseguiria eliminar apenas algumas matérias, mas preferi retomar o curso do começo e aproveitar o convívio de ter meu pai na mesma turma que eu.
Postado por Kelly Cristina e Marcelo Pitombo.

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